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A utilidade do inútil

Caros leitores, imagino desde já que vocês estejam tentando compreender a ambiguidade do título deste post, mas não fiquem tão ansiosos, pois esta dúvida será sanada ao longo deste discurso.

Em primeiro lugar eu gostaria de fazer três (3) perguntas:

  • Alguém já comeu, viu alguém comer ou tem vontade de comer um quadro do Picasso?
  • Alguém já viu algum jogador de futebol estagiando de enfermeiro em algum hospital público?
  • Alguém viu Mark Zuckerberg salvando criancinhas de um incêndio?

Provavelmente estas são as três perguntas mais bizarras que vocês já devem ter se deparado, mas elas me surgiram diante de um embate, deveras desgastante, sobre prioridades diante de um desastre, onde minha amiga Lia (que é artista, publicitária e “atleta” por assim dizer) disse que numa catástrofe artistas, esportistas e publicitários seriam descartados.

Até então, não houve nenhum problema, mas claro, sempre surgem os revoltadinhos de internet (confiram o que é um “putz revolts” aqui: Organógenos) que querem fazer uma tempestade num copo d’água e dizer que os artistas deveriam ser salvos e blá, blá, blá… Resumindo, querem chamar a atenção!

E logicamente, surgem os gigantescos discursos defensores da honra dos nossos abandonados inúteis, discursos, talvez, dignos de um tribunal se houvessem sido fundamentados em algum pressuposto mais… verossímil, mas diga-se de passagem, são pelo menos fonte de espetáculo, na verdade uma grande comédia.

Esclarecendo melhor, a “briga” foi porque os revoltadinhos queriam defender a utilidade dos atletas e dos artistas, e queriam queimar apenas os publicitários, e o discurso tinha como alicerce a grande utilidade (de entretenimento) dos artistas, e a grande superação (falta de ter o que fazer) dos atletas. E diziam (exatamente assim):

“Como artista vou entrar na história. Concordo que toda arte é inutil, isso está no prefácio do maravilhoso “O retrato de Dorian Gray” nesse prefácio também se encontra os motivos pelos quais é importante que haja arte, ele é reveladora, diagnostica cada época. Uma sociedade sem arte é uma sociedade sem conciência de si mesma, sem identidade. As coisas não precisam ser funcionais para serem importantes. O atleta leva o corpo ao seu limite. Sinto um profundo respeito por todos. Quero saber do que somos capazes. O atleta, o artista são pontes para o melhor do homem. Quanto aos publicitários são pagos para nos convencer de que devemos comprar coisas das quais, na maioria das vezes, não precisamos. A publicidade não é uma ponte para o melhor do homem, ela tem uma função bem especifica. A não ser que você assossie a superação do homem por si mesmo com crescimento econômico… Discordaria, mas ai é outra conversa.” (Autor desconhecido, hahahahaha)

Bem, e aí chega a quarta pergunta estrondosa:

  • Desde quando a humanidade tem consciência de si mesma?

Mas devo confessar, alguns trechos me impressionaram muitíssimo, como “O atleta, o artista são pontes para o melhor do homem.” e é para se impressionar mesmo, pois com isto eu fiquei sem entender o que é o “melhor” do homem segundo este sujeito, pois o atleta apenas se desgasta fisicamente para entreter milhares de troux… pessoas que pagam ingressos caríssimos para assistí-los, e assim, manter os salários milionários destes tais atletas e enquanto isso, as crianças estão com fome em casa… realmente o “melhor”.

E sobre o que minha amiga disse, nunca foi dito que arte, esporte, publicidade, entre outros, não são importantes para a humanidade, mas é necessário que se compreenda o nível de importância que cada uma dessas coisas tem.

Alguém já experimentou levar um quadro de René Magritte para um mendigo olhar? Provavelmente não, e se levasse, sabe o que aconteceria? Eu conto à vocês, ele diria: “tem um real aí?”, “compra um lanche pra mim?”, ou, mais recentemente, “tem um baseado aí?”.

E sabem por que isso ocorre?

Antes de explicar, vou tentar dar uma breve aula (bem rudimentar) de anatomia e fisiologia humana aqui.

O corpo é o que chamamos de “máquina perfeita” pois ele funciona em perfeita harmonia, quando tudo nele está em bom estado. Mas quando algo errado acontece, não é só uma parte do corpo que é afetada, mas sim, ele como um todo, e quando é possível, o seu cérebro cria condições para suprir o que está faltando (substitui), e quando não é possível, então há o que conhecemos como adoecimento.

Então, o mendigo pede dinheiro, comida ou droga, porque quando ele está com fome seu cérebro não consegue substituir o que está com defeito por outra coisa, pois a alimentação é fundamental para o funcionamento perfeito do corpo, por isso, se o mendigo parou de comer, significa que as vitaminas e sais minerais indispensáveis para que ele aprecie ou não a obra de Magritte estão em falta em seu organismo, consequentemente em seu cérebro, e assim temos o primeiro ponto esclarecido. Arte não mata fome! (Droga ilude o Sistema Nervoso Central e dá a ilusão de saciedade)

Agora imaginem a seguinte cena: Um desastre natural ocorre, existem milhares de pessoas feridas num hospital, muitas vítimas de queimaduras, e não tem nenhum médico pra atender, mas por “sorte” (eu ri), temos um time de futebol que estava passando pelo local, então temos atacantes, zagueiros, ronaldinhos, todos para ajudar os feridos. E convenientemente os jogadores começam o espetáculo, embaixadinhas, cabeçadas e muitas façanhas para alegrar os pacientes que estão agonizando em seus leitos, não satisfeitos os jogadores convidam as atletas da ginástica olímpica para melhorar o espetáculo e dar um toque mais “angelical”, neste exato momento um dos pacientes precisa urgentemente de uma transfusão de sangue e então… qual será o resultado?

Simples: K.O. para os pacientes (a dor impede que o indivíduo consiga raciocinar como alguém sadio, portanto, os pacientes não conseguiram admirar o “melhor” dos atletas)

Bem, eu poderia continuar contextualizando com o exemplo do ilustríssimo Mark Zuckerberg mas acredito que todos já tenham compreendido o que Lia, Lucian, Dotô (que não estava no diálogo mas rolou de rir quando contei) e eu (que sou duplamente artista e estudante de psicologia – outra coisa mais ao topo da pirâmide) tentamos expressar quando dissemos que artistas, atletas, publicitários, psicólogos e advogados não seremos salvos pois a prioridade será para os médicos, enfermeiros, bombeiros, policiais, e outros que podem garantir que as necessidades básicas dos seres humanos sejam deveras atendidas.

Em caso de dúvidas: Pirâmide de Maslow

Sem mais.